A fadiga é o sintoma mais comum e incapacitante da covid longa, afetando a capacidade de trabalhar, cuidar da família e retomar a rotina de milhões de pessoas em todo o mundo. Apesar da escala do problema, poucas opções terapêuticas contam com evidência robusta. Um ensaio clínico publicado em 31 de março de 2026 na Annals of Internal Medicine, coliderado pela McMaster University e conduzido inteiramente em centros ambulatoriais brasileiros, identificou a fluvoxamina, antidepressivo de baixo custo, como uma das primeiras opções farmacológicas com benefício comprovado para esse sintoma.
Como o estudo foi desenhado
O ensaio, randomizado, controlado por placebo e adaptativo, foi conduzido em 22 centros ambulatoriais no Brasil, entre outubro de 2023 e fevereiro de 2025. Participaram 399 adultos com fadiga persistente por pelo menos 90 dias após uma infecção confirmada por SARS-CoV-2, medida por uma pontuação mínima de 4 em uma escala validada de 7 pontos (Fatigue Severity Scale). Pacientes com diagnóstico confirmado de transtorno depressivo maior foram excluídos, embora sintomas depressivos leves não tenham sido critério de exclusão.
Os participantes foram distribuídos aleatoriamente para receber fluvoxamina (100 mg, duas vezes ao dia), metformina (750 mg, duas vezes ao dia) ou placebo, por 60 dias. A fluvoxamina é um inibidor seletivo de recaptação de serotonina (ISRS), tradicionalmente usado no tratamento do transtorno obsessivo-compulsivo, e já vinha sendo estudada por seu potencial efeito anti-inflamatório na fase aguda da COVID-19.
Os resultados
A fluvoxamina mostrou redução significativa da fadiga em comparação ao placebo no dia 60, com efeito sustentado até o dia 90. Após 30 dias de tratamento, os pacientes que receberam fluvoxamina tinham quase 50% mais chance de relatar uma pontuação de fadiga de 3 ou menos, considerada um patamar indicativo de melhora clínica relevante, em comparação ao grupo placebo.
Além da redução da fadiga, o grupo tratado com fluvoxamina relatou melhora na qualidade de vida e menos eventos adversos do que o grupo placebo. A metformina, avaliada no mesmo desenho de estudo, não demonstrou o mesmo benefício sobre a fadiga.
Relevância biomédica
Para o biomédico que atua em análises clínicas ou apoio a serviços de atenção à covid longa, este resultado tem duas implicações práticas diretas. Primeiro, a ampla disponibilidade da fluvoxamina como medicamento genérico, seu perfil de segurança já bem estabelecido em outras indicações e seu baixo custo tornam essa opção terapêutica de fácil incorporação a protocolos ambulatoriais, inclusive no SUS, sem as barreiras de acesso típicas de medicamentos novos e patenteados.
Segundo, o fato de o ensaio ter sido conduzido inteiramente em sites brasileiros é relevante para a validade externa dos achados na nossa população, um ponto que frequentemente exige ressalva quando se trata de estudos conduzidos exclusivamente no exterior. Isso reduz a incerteza sobre a aplicabilidade dos resultados ao contexto assistencial brasileiro.
Vale reforçar que este não é um teste diagnóstico nem um exame laboratorial, mas o tipo de evidência terapêutica que molda protocolos clínicos multidisciplinares nos quais o biomédico frequentemente atua como parte da equipe de cuidado, seja em bancos de dados de acompanhamento de pacientes crônicos, seja em programas de pesquisa clínica.
Limitações do estudo
O desfecho primário do estudo foi baseado em uma escala de autorrelato de fadiga, sujeita a variabilidade subjetiva e a possíveis efeitos de expectativa do paciente, mesmo em um desenho duplo-cego. O acompanhamento avaliado neste artigo vai até o dia 90, e a durabilidade do benefício em prazos mais longos ainda não foi estabelecida.
Além disso, pacientes com diagnóstico confirmado de transtorno depressivo maior foram excluídos do estudo, o que limita a extrapolação dos resultados para essa população específica, na qual o efeito da fluvoxamina sobre a fadiga poderia se confundir com sua ação antidepressiva já conhecida.
Referências
Reis G, Moreira Silva EAS, Medeiros Silva DC, et al. The Effect of Fluvoxamine and Metformin for Fatigue in Patients With Long COVID: An Adaptive Randomized Trial. Annals of Internal Medicine. 2026;179(5).
McMaster University. Common antidepressant eases fatigue associated with long COVID, study finds. Março de 2026.
Equipe Biomed Viva
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