Cérebro humano em estudo sobre Alzheimer e lecanemabe
ALERTA CIENTÍFICO

Lecanemabe no Brasil: o que a aprovação do primeiro anticorpo anti-Alzheimer exige do laboratório clínico

Por Equipe Biomed Viva · Revisão técnica por biomédicos8 min de leitura
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Por décadas, o tratamento do Alzheimer foi essencialmente sintomático. Inibidores de colinesterase e memantina aliviavam parcialmente a disfunção cognitiva, mas nenhum deles tocava na biologia da doença. A causa subjacente, o acúmulo progressivo de placas beta-amiloides e emaranhados de proteína tau no parênquima cerebral, permanecia intocada.

Em 22 de dezembro de 2025, a Anvisa publicou no Diário Oficial a aprovação do lecanemabe, comercializado como Leqembi, como o primeiro medicamento biológico com mecanismo de ação sobre a fisiopatologia do Alzheimer aprovado no Brasil. Sua chegada ao mercado, prevista para o primeiro semestre de 2026, não representa apenas um avanço terapêutico. Ela redefine o papel do laboratório clínico e, com ele, o do biomédico, no manejo de uma das doenças mais prevalentes do envelhecimento humano.

O que é o lecanemabe e como ele age

O lecanemabe é um anticorpo monoclonal humanizado da classe IgG1, desenvolvido pela Eisai em colaboração com a Biogen. Diferentemente das terapias anteriores voltadas ao Alzheimer, o lecanemabe foi projetado para se ligar seletivamente às protofibrilas solúveis de beta-amiloide, consideradas a forma mais neurotóxica da proteína antes de sua consolidação em placas insolúveis.

Ao se ligar a essas formas solúveis e oligoméricas de amiloide, o lecanemabe recruta células do sistema imune para remover a proteína do tecido cerebral, reduzindo a carga amiloide de forma mensurável por exames de imagem. Essa distinção é clinicamente relevante: ao agir nas protofibrilas, o fármaco tenta interceptar a cascata neurodegenerativa em um estágio anterior à formação das placas densas, que respondem menos a intervenções terapêuticas.

O mecanismo representa uma mudança de paradigma: em vez de tratar consequências, o lecanemabe age sobre um dos eventos moleculares centrais da doença.

Os dados do estudo CLARITY-AD

A aprovação do lecanemabe no Brasil e no mundo foi fundamentada nos resultados do estudo CLARITY-AD, publicado no New England Journal of Medicine. O ensaio clínico de fase 3 acompanhou 1.795 participantes com Alzheimer em fase inicial durante 18 meses.

Os resultados demonstraram uma redução de aproximadamente 27% no declínio clínico no grupo tratado em comparação ao placebo, medido por escalas que avaliam memória, orientação e capacidade de resolução de problemas cotidianos. O estudo também documentou redução robusta da carga amiloide cerebral em exames de PET.

É importante contextualizar esse número. Uma redução de 27% no ritmo do declínio cognitivo não representa a cura da doença. Pacientes tratados continuam a progredir, apenas em velocidade menor. Para uma doença sem precedente de modificação real de curso, no entanto, esse resultado é considerado historicamente significativo.

O medicamento também apresenta riscos. A principal complicação observada foi a síndrome ARIA (Amyloid-Related Imaging Abnormalities), que inclui edema cerebral e microhemorragias detectáveis por ressonância magnética. A frequência foi maior em portadores do alelo ApoE ε4 em homozigose, o que levou a Anvisa a restringir o uso a pacientes não portadores ou heterozigotos desse alelo.

Por que isso muda o laboratório clínico

A aprovação do lecanemabe introduz uma exigência nova e rigorosa: antes de iniciar o tratamento, é obrigatória a confirmação biológica da patologia amiloide no paciente. O diagnóstico clínico isolado, mesmo com avaliação neuropsicológica detalhada, não é suficiente para indicar a terapia.

Essa confirmação pode ser obtida por dois caminhos. O primeiro é o exame de PET amiloide, de alto custo e disponível em poucos centros no Brasil. O segundo, e aqui está a grande abertura para o laboratório clínico, é a dosagem de biomarcadores no líquido cefalorraquidiano (LCR) ou no plasma sanguíneo.

O perfil bioquímico padrão inclui a dosagem de beta-amiloide 42 e 40, proteína tau total e tau fosforilada. A relação beta-amiloide 42/40 no LCR é um dos marcadores mais estabelecidos na literatura, com sensibilidade e especificidade superiores a 85% em metaanálises recentes. A proteína tau fosforilada no plasma, detectável por imunoensaios ultrassensíveis como o Simoa, já demonstra desempenho comparável ao LCR em populações selecionadas.

A genotipagem do alelo ApoE ε4, necessária para estratificar o risco de ARIA antes de iniciar o lecanemabe, também passa pelo laboratório. Trata-se de exame de biologia molecular ou sequenciamento genético que identifica os genótipos ε2/ε3/ε4 da apolipoproteína E.

O papel do biomédico nesse novo cenário

Para o biomédico, a chegada do lecanemabe representa uma expansão concreta de relevância clínica em neurologia, área que historicamente ficou restrita a especialistas médicos.

Na análise clínica laboratorial, a padronização e validação de métodos para dosagem de biomarcadores do Alzheimer em LCR e plasma são uma necessidade urgente. Equipamentos de imunoensaio ultrassensível, como as plataformas Lumipulse, Quanterix Simoa e Elecsys da Roche, estão sendo incorporados a laboratórios especializados justamente para viabilizar esse rastreio.

A precisão analítica é crítica. Os valores de corte para a relação amiloide 42/40 variam entre plataformas, e a padronização pré-analítica, que inclui protocolo de coleta de LCR, condições de centrifugação, temperatura de armazenamento e tipo de tubo, tem impacto direto nos resultados. Um valor limítrofe analisado fora das condições recomendadas pode levar à indicação ou contraindicação incorreta de uma terapia de alto custo e com riscos reais.

Na genômica clínica, a genotipagem do ApoE ε4 precisa ser realizada com acurácia e acompanhada de laudo que contextualize o risco calculado de ARIA para cada genótipo.

No monitoramento terapêutico, a correlação entre achados de imagem e biomarcadores laboratoriais está sendo ativamente estudada, com potencial para o laboratório atuar como complemento ao monitoramento por ressonância magnética.

O problema do acesso

A discussão sobre o lecanemabe no Brasil não pode ignorar sua dimensão econômica. Estimativas para 2026 apontam um custo anual entre R$ 140 mil e R$ 269 mil, dependendo da carga tributária e da cotação cambial. A isso somam-se os custos operacionais: infusão hospitalar quinzenal, ressonâncias de monitoramento e o painel de biomarcadores pré-tratamento.

O lecanemabe não está incluído na RENAME, a lista de medicamentos do SUS, e não há perspectiva de cobertura universal no curto prazo. Para o Alzheimer, que afeta cerca de 1,8 milhão de pessoas no Brasil, a equação entre eficácia comprovada e acesso limitado é uma tensão ética que o sistema ainda não resolveu.

O que a ciência ainda não sabe

O lecanemabe foi aprovado para pacientes com Alzheimer em fase inicial. Não há dados de eficácia para estágios moderados ou avançados da doença, e o uso fora das populações estudadas no CLARITY-AD não tem respaldo nas diretrizes atuais.

A duração ideal do tratamento também não está estabelecida. O estudo durou 18 meses, e não há dados robustos sobre o que ocorre com a carga amiloide e o declínio cognitivo em horizonte de 5 ou 10 anos de tratamento continuado.

Os mecanismos de resistência ao lecanemabe e a identificação de biomarcadores preditores de resposta são linhas de pesquisa ativamente investigadas. A relação entre a redução da carga amiloide detectada por PET e a magnitude do benefício clínico ainda não é perfeitamente linear, o que sugere que outros processos fisiopatológicos, incluindo a tauopatia e a neuroinflamação, influenciam a resposta terapêutica de forma independente.

Conclusão

A aprovação do lecanemabe no Brasil não é apenas mais um marco regulatório. É a abertura de um novo capítulo no manejo de uma doença que, por décadas, só oferecia conforto sem modificação real de curso.

Para o laboratório clínico, representa uma responsabilidade nova. A indicação correta do lecanemabe depende de biomarcadores bem dosados, genotipagem precisa e protocolos pré-analíticos rigorosos. O biomédico que dominar essa interface entre neurologia, genômica e análise laboratorial estará em posição central nessa nova era do diagnóstico do Alzheimer.

A chegada do lecanemabe não inaugura uma era de milagres. Inaugura uma era de medicina mais exigente, mais cara e mais dependente de laboratório do que nunca.

Equipe Biomed Viva

Conteúdo produzido e revisado por biomédicos com base em literatura científica indexada. O Biomed Viva não substitui orientação profissional ou laudo laboratorial.

Referências: Anvisa, aprovação publicada em 08/01/2026. van Dyck CH et al. Lecanemab in Early Alzheimer's Disease. N Engl J Med. 2023;388(1):9-21. Hansson O et al. CSF biomarkers of Alzheimer's disease. Nat Commun. 2019;10(1):1144. Barbosa BJAP et al. Lecanemabe: uso no Brasil e critérios de elegibilidade. SanarMed, 2026. Eisai/Biogen. Leqembi prescribing information, 2023.

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