Toda célula cancerosa carrega uma história escrita em seu DNA. Luz ultravioleta, fumaça de cigarro, falhas herdadas nos genes de reparo, cada um desses fatores deixa uma marca molecular específica, um padrão repetido de mutações que funciona como impressão digital do processo que originou o tumor. Até pouco tempo, a maior parte dessas impressões digitais permanecia ilegível para a prática clínica. Um estudo publicado em março de 2026 na Nature Genetics mudou essa realidade ao produzir o catálogo mais completo já criado dessas assinaturas genômicas, com implicações diretas para quem interpreta exames moleculares no laboratório clínico brasileiro.
O estudo que decifrou 370 milhões de mutações
A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade de Manchester e do Institute of Cancer Research, em Londres, sob liderança dos professores David Wedge e Richard Houlson. Ao longo de seis anos, a equipe analisou dados de sequenciamento completo do genoma de quase 11 mil pacientes com câncer, recrutados por meio do 100,000 Genomes Project, do Genomics England, o maior estudo de genômica oncológica já realizado no mundo.
O time examinou 16 tipos de câncer e catalogou 370 milhões de mutações somáticas. A partir desses dados, identificou 134 assinaturas mutacionais distintas, os padrões característicos de dano ao DNA. Desse total, 26 assinaturas eram completamente novas, sem correspondência nos catálogos de referência usados até então pela comunidade científica, incluindo o COSMIC (Catalogue of Somatic Mutations in Cancer).
Um diferencial metodológico importante é que o estudo não se limitou às mutações de base única (SBS, do inglês single-base substitutions), o tipo de alteração mais estudado até hoje. A equipe também mapeou assinaturas de substituições de pares de bases (DBS), pequenas inserções e deleções (ID), alterações no número de cópias (CN) e, pela primeira vez em escala comparável, variações estruturais (SV), rearranjos maiores que afetam segmentos inteiros de cromossomos. Essa combinação permite reconstruir com muito mais precisão a história evolutiva de um tumor, incluindo quando certas mutações ocorreram ao longo do tempo.
Da assinatura ao mecanismo: por que isso importa na prática
Uma assinatura mutacional não é apenas um dado estatístico. Ela aponta, com razoável precisão, para o mecanismo biológico que gerou aquele dano. Exposição à luz ultravioleta gera um padrão característico de mutações em C>T. O tabagismo deixa uma marca distinta em pulmão. Falhas herdadas nos genes BRCA1 e BRCA2 produzem uma assinatura associada à deficiência de reparo por recombinação homóloga. Ler essas marcas permite inferir, a partir do genoma do tumor, a causa provável do câncer, quando as mutações críticas ocorreram e, mais importante para a clínica, quais vulnerabilidades terapêuticas aquele tumor específico carrega.
HRD: a descoberta com maior impacto clínico imediato
O achado de maior relevância prática do estudo envolve a deficiência de recombinação homóloga, conhecida pela sigla HRD (homologous recombination deficiency). Trata-se de uma falha no mecanismo que a célula usa para reparar quebras na dupla-fita do DNA, e ela torna o tumor especialmente sensível a inibidores de PARP e à quimioterapia à base de platina.
Até hoje, a triagem para HRD na prática clínica depende majoritariamente da pesquisa de mutações em BRCA1 e BRCA2. O estudo mostrou que essa abordagem deixa de fora uma parcela significativa de casos. Ao analisar as assinaturas genômicas completas, os pesquisadores identificaram HRD em 16% dos tumores de mama e em 14% dos tumores de ovário da coorte, uma proporção bem maior do que a detectada pelos testes genéticos convencionais isoladamente. Com base em dados populacionais do Reino Unido, os autores estimam que mais de 7.700 pacientes com câncer de mama e mais de mil pacientes com câncer de ovário poderiam se beneficiar de terapias direcionadas à HRD que hoje não são consideradas elegíveis pelos critérios padrão de testagem.
Na prática, isso reforça um movimento que já vinha ganhando força na medicina laboratorial: migrar de painéis genéticos restritos, focados em genes isolados, para uma leitura mais ampla do genoma tumoral, capaz de capturar assinaturas de HRD independentemente da presença de uma mutação pontual conhecida em BRCA1/2.
A pista da Escherichia coli no câncer colorretal de início precoce
Outro achado chamou atenção da comunidade científica. Os pesquisadores identificaram, entre as assinaturas novas, um padrão de dano ao DNA associado a toxinas produzidas por cepas específicas de Escherichia coli no intestino. Diferente da maioria das assinaturas relacionadas ao envelhecimento celular, que se acumulam progressivamente com a idade, essa assinatura apareceu com maior frequência em pacientes mais jovens.
O achado reforça uma hipótese que vem ganhando espaço na literatura nos últimos anos: parte do aumento observado em casos de câncer colorretal de início precoce, isto é, diagnosticado antes dos 50 anos, pode estar relacionada à exposição cumulativa a essas toxinas bacterianas genotóxicas ao longo da vida. É uma linha de investigação ainda em desenvolvimento, mas que já direciona pesquisas futuras sobre o papel da microbiota intestinal na carcinogênese.
Relevância biomédica
Para o biomédico que atua em oncogenética, biologia molecular ou gestão de qualidade em laboratórios que oferecem painéis oncológicos, este estudo tem três implicações concretas:
Primeiro, ele reforça que a interpretação de HRD baseada apenas em BRCA1/2 subestima o número de pacientes elegíveis para PARP-inibidores. Laboratórios que ainda trabalham exclusivamente com painéis restritos devem acompanhar a expansão de testes que avaliam assinaturas genômicas completas, como os escores de HRD baseados em perda de heterozigosidade (LOH), instabilidade telomérica (TAI) e transições estruturais (LST), já disponíveis comercialmente em plataformas de sequenciamento de nova geração.
Segundo, o estudo consolida o sequenciamento completo do genoma (WGS) como ferramenta com potencial diagnóstico e não apenas de pesquisa. Embora o WGS ainda seja pouco acessível na rotina brasileira, por custo e infraestrutura, o caminho regulatório e tecnológico aponta para uma adoção crescente em centros de referência oncológica nos próximos anos.
Terceiro, a descoberta da assinatura associada à E. coli abre uma nova frente de investigação sobre biomarcadores de exposição ambiental e microbiana em painéis moleculares, um campo ainda incipiente, mas com potencial de virar rotina de triagem em populações jovens com câncer colorretal.
Limitações do estudo
Alguns pontos merecem cautela na leitura deste achado. A coorte estudada é composta majoritariamente por pacientes do sistema de saúde britânico (NHS), o que limita a generalização direta das prevalências de HRD e de outras assinaturas para a população brasileira, com sua miscigenação genética distinta. As estimativas de pacientes elegíveis a terapias direcionadas também foram calculadas com base em dados demográficos do Reino Unido, não do Brasil.
Além disso, a identificação de uma assinatura genômica associada a HRD ainda não substitui, na maioria dos protocolos clínicos atuais, os critérios de bula aprovados para prescrição de PARP-inibidores. A tradução desse achado em mudança de prática exige validação clínica adicional e, no Brasil, também exige avaliação regulatória pela Anvisa e incorporação pelos protocolos de cobertura em saúde suplementar e no SUS. Por fim, a associação com E. coli é, até o momento, uma correlação epidemiológica robusta, não uma relação causal comprovada, e segue sendo investigada.
Equipe Biomed Viva
Conteúdo produzido e revisado por biomédicos com base em literatura científica indexada. O Biomed Viva não substitui orientação profissional ou laudo laboratorial.
Referências: Everall A, Tapinos A, Hawari A, et al. Comprehensive repertoire of the chromosomal alteration and mutational signatures across 16 cancer types. Nature Genetics. 2026;58(3):570-581. University of Manchester. UK cancer scientists uncover genetic clues as to what drives tumour growth. Manchester Cancer Research Centre, março de 2026.